Apresentação do livro pelo coletivo à escuta — Corinna Lawrenz, Joana Sá, Ana Viana, Luís J Martins e Lucas Tavares — com convidados (a anunciar).
“Comunidade : floresta — Vozes comunicantes para o futuro de um território” nasce da escuta atenta e continuada do território da Serra da Estrela e das suas comunidades e parte de três projetos artísticos do coletivo à escuta, realizados no Sul e no Norte desse território — Catálogo Poético (2020-21), CasaFloresta (2022-23) e Folha Volante (2024). O livro trabalha o arquivo destes projetos, mas abre o seu espectro de reflexão e de ressonância a novos contributos do coletivo, assim como a participações de colaboradores de áreas muito distintas, de movimentos cívicos ou de membros de coletividades locais. Através de uma linguagem diversa, polifónica e multidimensional — que cruza transcrições de conversas informais com linguagens literárias, científicas ou académicas, poéticas e pseudopoéticas — o livro reflete sobre o passado, presente e futuro da (des)floresta e das comunidades que com ela convivem. Os diferentes conteúdos são colocados lado a lado em ressonância tanto harmoniosa como, por vezes, dissonante, de forma não estática ou musealizada. Com ligações para vídeos, peças sonoras e publicações dos projetos anteriores, a reflexão expande-se também além do formato físico do livro.
Este livro procura ser uma ferramenta que contribua para pensar-fazer futuros dignos e verdejantes para este território. Por outro lado, procura colmatar o fosso que existe entre a vivência urbana e a realidade rural, procurando dar materialidade concreta a questões ligadas às urgências ecológicas, climáticas e sociais, percepcionadas, muitas vezes, de forma abstrata, teórica e distante. Procura, por fim, dar ferramentas de tangibilidade à ideia de interdependência: como podemos sentir com os nossos sentidos que o futuro global passa, inevitavelmente e radicalmente, por aqui?
Apesar de lidar com questões concretas de um território (ou talvez precisamente por isso), achamos que este é um livro que só poderia ter sido feito de uma perspetiva artística: nos moldes como escuta, relaciona, associa, desassocia, transflui, transforma e talvez pela forma como, tão fora da moda dos tempos, se permite não só sonhar, mas insistir nesta prática como uma metodologia absolutamente necessária para a criação de futuros.
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à escuta foi iniciado por Joana Sá (pianista, compositora, artista transdisciplinar) e Luís J Martins (guitarrista, compositor, artista transdisciplinar) com o projeto à escuta: catálogo poético em 2020-21. Esta iniciativa procurava formas descentralizadas de pensar-fazer artísticas que pensassem as urgências ambientais e sociais globais (incêndios florestais, alterações climáticas, desigualdades estruturais, etc.) a partir da pequena escala de um território: a pequena aldeia de Frádigas (Vide, Seia) no PNSE – Parque Natural da Serra da Estrela. Com CasaFloresta (2022-23), começámos a alargar o pensar-fazer interdisciplinar de Catálogo Poético – que congregava comunidades, colaboradores científicos, movimentos cívicos e coletivos – a outras aldeias próximas (Balocas, Gondufo, Vide), e às aldeias de Figueiró da Serra e Freixo da Serra, no Norte do PNSE. Com Folha Volante (2023-24), uma encomenda do Teatro Nacional D. Maria II., o espectro do território e das comunidades do PNSE (e não só) com as quais trabalhámos continuou a aumentar.
Ao longo destes projetos, juntaram-se três novos elementos de forma efetiva e afetiva ao coletivo artístico à escuta: Corinna Lawrenz (edição e facilitação), Lucas Tavares (vídeo) e Ana Viana (design). Trabalhando (sobretudo) nos territórios do PNSE e em/com as suas comunidades, o coletivo propõe uma reflexão inter- e transdisciplinar em torno do futuro destes territórios. Intimamente ligados a uma noção de ‘escuta’ enquanto relação ressonante com o ‘outro’, os seus projetos artísticos propõem o relacionamento e a escuta entre artistas, comunidades locais, colaboradores de diferentes áreas científicas, movimentos cívicos, associações locais, etc.